PROMESSA DE CASTIDADE

Eu era muito novinha quando entrei, tinha só doze anos.

Não fazia muito tempo que uma pessoa da Ordem Segunda acabara de falecer. Fiquei muito impressionada com a história que contavam dela, sobre ter se oferecido como vítima expiatória, alguém que oferece a sua alma à Nossa Senhora como tributo e Ela aceita: recolhe a sua alma e seu sofrimento. Eu estava encantada com essa ideia, queria aquilo para mim, mas pensa, que absurdo, uma menina de doze anos pensando em entregar a alma a Deus, que maturidade tinha eu para tomar uma decisão dessas, mas na época essa ideia era muito “flashosa”.

Lembro que ficava pedindo a encarregada para conversar com ele (então Pe. João) para me entregar como vítima expiatória também e rezava para que Nossa Senhora me recolhesse um dia.

Consegui uma palavrinha, na sacristia do Auditório da Luz, conversei com ele e me lembro de aproveitar a ocasião para perguntar: “Se uma pessoa não nasce com vocação, é possível Nossa Senhora dar a ela depois?”. Ele olhou nos meus olhos e falou assim: “Não se preocupe com isso, porque desde o Batismo Nossa senhora já lhe deu a vocação”. Todas me diziam que ele tinha o discernimento dos espíritos, então acreditei que ele tinha visto a vocação na minha alma. Fiquei super “enflashada” e pensei, “Nossa, estou no lugar certo”. Falei então a ele, que queria me entregar como vítima expiatória. Ele disse que não era o caso, que eu era muito nova, que eu teria que crescer para isso. Apesar da resposta dele, isso sempre ficou na minha cabeça, sentia que devia tinha que fazer algo mais.

Recebi o Hábito e conversando com uma das meninas que morava comigo e ela me disse que tinha feito a promessa de Castidade. Eu sempre com essa ideia de “quero fazer algo mais”, pensei que aquilo seria o melhor para mim. Óbvio que naquela época a gente desejava a atenção dele de qualquer forma, porque, “Nooossa, um contato com Monsenhor”, e a promessa seria uma “desculpa” perfeita.

Perguntei à encarregada se poderia fazer a promessa, ela me orientou que escrevesse o a fórmula e mostrasse para ela para aprovação, depois disso ela marcaria um encontro com o João. Já tinham um rascunho, eu apenas copiei, mostrei para a encarregada, ela autorizou. Eu era muito criança, pode-se ver, a escrita é bem infantil até, eu era muito miudinha.

Foi depois de uma reunião de sábado, ele já tinha atendido todo mundo – porque ele passava pelo auditório do Thabor a todas nas reuniões de sábado reservadas só para os membros da ordem segunda – e ele ficou meio isolado lá fora, chamaram-me e eu fui até ele. Ele leu em voz alta o que estava escrito e disse “Eu, (meu nome)…” e leu tudo comigo, inclusive o nome dele que está citado na promessa. Chegando à parte “Faço a promessa de castidade perfeita por…”, ele escreveu, “por um ano”, e terminou de ler. Assinou e rezou comigo três ave Marias, deu uma bênção e aí falou, “A partir de agora você está numa promessa, espero que Nossa Senhora te ajude a cumprir”. Então eu pedi para ele uma oração para rezar durante esse um ano, junto com a promessa que eu tinha feito, ele falou para eu rezar um “Há momentos”, aquela oração feita por Dr. Plinio.  

Todo dia a noite eu rezava um Há momentos e tentava praticar a promessa de Castidade perfeita e pensava, “nossa, agora estou treinando para os meus votos”.

Lembro-me que eu fiquei tão pilhada com essa ideia de promessa, que andando na rua, quando a gente ia para São Paulo, ficava me vigiando muito, se eu fixasse o olhar em alguém que tivesse uma roupa do mundo – calça jeans e camiseta – e prestasse atenção, já me sentia em pecado mortal e pensava, “a qualquer momento eu vou morrer e vou para o inferno”. Eu fiquei meio paranoica nessa época, tanto que depois de um ano eu nem pensei em renovar a promessa.

Hoje penso como permitiram que uma adolescente de 12 anos fizesse uma promessa sem qualquer preparo ou inclusive um acompanhamento espiritual?

À medida que esse relato foi feito me veio também o questionamento, por que em nenhum momento me orientaram a falar com a minha família sobre tal decisão? Se era algo correto, por que esconder?

Conseguem imaginar quantas coisas ainda estão sendo feitas por baixo dos panos, sem o menor consentimento e conhecimento da Igreja? Que dirá dos pais…

É a esse lugar que vocês confiam seus filhos? O que mais eles escondem?

SAIR DA SEITA JÁ É UM PASSO MUITO IMPORTANTE, MAS A LUTA PODE ESTAR SÓ COMEÇANDO

Sobrevivente ou “ex-membro” de um grupo manipulador, normalmente é uma pessoa que se solidariza com os seus semelhantes. Claro, as experiências sectárias dependem de muitos fatores. Não é possível dizer que o ex membro “A” teve a mesma experiência do ex membro “B”. Às vezes, a única experiência em comum é que ambos saíram. Mas, por exemplo, “A” foi expulso do grupo enquanto que “B” saiu por motivo de saúde, ou porque seus pais o tiraram. Enfim… nem todo ex-membro de seita é igual e reage da mesma forma.

“Os seguidores têm três alternativas básicas para deixar a seita: eles saem, eles são expulsos (muitas vezes quando estão “muito queimados” tanto física como psicologicamente), ou são aconselhados a sair. Embora tenham a sorte de poder deixar o grupo destrutivo, a adaptação para viver no “mundo real” pode ser muito difícil. Se eles não recebem informações e conselhos adequados depois de deixar a seita, as fobias induzidas pelo grupo, que eles mantêm em seu subconsciente, vão transformá-los em itinerantes “bombas relógio”. Além disso, muitos seguidores têm vivido tanto tempo sem ter feito qualquer tipo de trabalho normal ou vida social que o processo de reajuste para a vida adulta torna-se muito difícil para eles. Há pessoas que, depois de deixarem a seita, voltaram a se juntar a ela. Embora, segundo a minha experiência, estas pessoas sejam geralmente a exceção que confirma a regra, elas demonstram claramente como são vulneráveis as pessoas que acabam de abandonar um ambiente mentalmente controlado” (Steve Hassan, Las técnicas de contról mental de las sectas y como combatirlas).

Em muitos casos, ex-membros, por sua vez, se transformam em instrumentos aptos para ajudar as vítimas de processos de controle mental, pois sabem, em primeira mão, o que se passa na mente de uma pessoa sectarizada.

Logo após ter saído de um grupo manipulador destrutivo católico, também me deparei, e ainda me deparo, com alguns casos de ex-membros que preferem não falar sobre a sua experiência e sentem até um certo prazer em me corrigir e dizer que a experiência deles não é nada parecida com a minha.

Estes me dizem, toda vez que me ouvem falar ou escrever: “eu não tive essa experiência tão negativa”, e dizem que “cada um teve uma experiência muito pessoal e própria”, dando-me a entender que o melhor que eu deveria fazer é silenciar-me porque, dado que a minha experiência não é universalmente válida, de nada serve continuar me importando com isso.

Ouço-os sempre, mas nunca me convencem totalmente. Por que será?

Nas palavras do clássico livro citado acima, do psiquiatra americano Steve Hassan, muitos desses ex-membros podem ser aqueles que ele denomina de “fugitivos”, que ainda estão dominados pelos sentimentos de culpa e guardam, em segredo, a sua filiação ao grupo sectário.

Não digo que, como ex-membro, devemos dedicar toda a vida a destruir a seita da qual fomos membros. Sem dúvida, é muito melhor dedicar uma vida à uma paixão, a algo que nos entusiasme, do que a algo que nos destruiu e causou danos.

Outro dia se aproximou de mim um senhor, casado, com filho, emprego, e toda uma vida organizada. Foi um colega dos tempos de seita. No entanto, havia saído há mais de 15 anos. Fiquei impressionado com a tristeza que carregava dentro, ao tocar no assunto do nosso passado. Parecia que carregava um peso terrível, uma carga que nunca pôde jogar para fora.  A opção dele – me disse – foi a de sempre se calar, nem sequer procurar saber as verdades publicadas sobre o grupo que ele fez parte. E, pelo jeito, o resultado não foi o que ele esperava.

Pessoalmente, sempre achei que a questão é dolorosa, mas simples: ou você se decide a mergulhar no seu passado, para aceita-lo, e superá-lo a cada dia, ou esse seu passado, mais cedo ou mais tarde, pode te pegar de surpresa, com toda a força, escancarando portas, arrombando todo o seu interior, e colocando em risco até mesmo a sua própria saúde mental.

Ou seja, guardar tudo em uma mala mental, como se isso resolvesse as coisas, pode ser como construir uma bomba relógio.

Claro, cada um é cada um. Mas, se a pessoa sente que precisa falar, se comunicar, não pode se deixar silenciar.

Há e sempre haverá aqueles que negam os efeitos destruidores de um processo de manipulação e programação. A começar por parentes, amigos, pessoas próximas, e até alguns ex-membros que prefeririam que simplesmente virássemos a página, estudássemos para um concurso e trabalhássemos, assim como eles fazem…

Mas, não são poucos os ex-membros que demoram anos para desativar na própria mente princípios e ideias destruidoras que foram implantadas na cabeça.

Recentemente, outro amigo muito próximo, me disse, em tom de confidencia, ter demorado uma década para conseguir se livrar da experiência que ele teve ao passar 1 mês na mesma seita que eu fiquei por longos 15 anos. Isso mesmo. Ele só passou 1 mês lá e demorou 10 anos para se livrar das consequências. O que me surpreendeu é que esse mesmo amigo sempre me disse para virar a página e aparentemente nunca deu ouvido às minhas queixas pessoais, dizendo que eu deveria “virar a página”…  Já não me surpreendo quando esse tipo de amigos, mais cedo ou mais tarde, me procuram para desabafar traumas que ainda os assustam e incomodam.

A mente é capaz de receber novas informações e retê-las para sempre. Isso é válido tanto para coisas prejudiciais quanto para as coisas boas. Talvez você tenha pensado que deixou a seita ao sair pela porta, mas pode demorar anos a fio para localizar e desativar bombas relógio que colocaram em sua mente.

Infelizmente, são poucos os terapeutas e pedagogos capacitados e com formação para ajudar ex-membros de seitas. Há muitos que saem e, no fundo, continuam dando crédito a coisas aprendidas dentro do grupo destruidor e que, inclusive, continuam participando de estruturas pertencentes ao grupo em questão. É como se, no seu coração, continuassem esperando o dia em que a política do grupo mudará, para que possam voltar a ele. São incapazes de compreender que o grupo está estruturado e alicerçado sobre fundamentos manipuladores e destruidores.

Ter saído de um grupo manipulador destrutivo já é um passo considerável e muito importante. Estás fisicamente livre!!! Amém! Aleluia, irmão! Mas, pode ser que psicologicamente, ainda demores alguns aninhos…

Quanto mais você encarar o seu passado, com paz, dando tempo ao tempo, não se pressionando para reconstruir a vida da noite para o dia, mais você irá encontrando as coisas boas que a sua experiência sectária te deu (aliás, nunca existe só coisas negativas, por pior que seja a experiência pessoal), e mais você irá descobrindo aquelas ideias, fobias, travamentos que a seita conseguiu implantar na sua mente, para ir desatando um por um. Não subestime a mente humana e não subestime as técnicas de controle mental usadas sobre ela.

Meu conselho? Literalmente, vire um devoto de Nossa Senhora desatadora dos nós. Para poucas pessoas essa devoção tem mais sentido do que para ex-membros de grupos assim. E Nossa Senhora, a verdadeira, (não a que usaram para manipular a sua mente), vai te guiar por um caminho maravilhoso até o Filho dela, Caminho, Verdade e Vida.

INTENÇÕES DE UMA EX INTEGRANTE DA ORDEM II AOS 15 ANOS – ABRIL DE 2017

As intenções das meninas, orientadas pelas superioras, giravam em torno de Monsenhor João Clá, pela cura, pela entrega total a ele, pela escravidão que todas queriam, para que pudessem ser inteiramente dele e trocar de mentes com ele. Ele é o modelo de santidade pra todas. É o modelo de vida, modelo de opinião, de crítica, ou seja, tudo é baseado nele, nas opiniões dele, nos pensamentos dele. E o que se pode perceber nas intenções é a falta do nome de Jesus. A figura de Jesus é substituída pela figura de Monsenhor, porque o modelo de vida e de santidade não é Jesus, é Monsenhor. O modelo a ser seguido é Monsenhor. Outro ponto muito forte também é que se reza pela total destruição de todos os inimigos dos Arautos, ou seja, dos inimigos de João Cla.

Vocês podem perceber que a Bagarre é algo tão pedido lá dentro que eles não pedem, por exemplo, pela conversão dos pecadores, pra que as pessoas se voltem para Jesus, para que as pessoas se convertam… Não! Eles rezam pelo castigo. Porque acreditam que aqueles que não estão conectados, que não seguem Monsenhor têm de ser castigados. Então eles rezam pelo castigo, eles rezam pela Bagarre.

Porque não rezam pelas pessoas que estão perdidas? Que não conhecem Jesus? No caso, eles só querem o castigo e que Monsenhor triunfe o quanto antes. Essa é a mentalidade de todos os membros dos Arautos do Evangelho, que tem o mínimo de vivência lá dentro.

COM O DEMONIO NÃO SE BRINCA

Grupo católico Os Arautos do Evangelho está na mira do Vaticano por práticas indevidas de exorcismo
PUBLICADO PELA VEJA EM 24/06/2017
“Uma notícia do mundo católico revelada nos últimos dias pela imprensa italiana assombrou crentes e não crentes. Os Arautos do Evangelho, um tradicional grupo católico e de origem brasileira, está sendo investigado pelo Vaticano. O motivo da sindicância: uma gravação em vídeo divulgada em reportagem do vaticanista Andrea Tornielli, do jornal La Stampa que exibe os integrantes praticando exorcismos fora das fórmulas da Igreja. Com uma hora e 19 minutos de duração, o registro exibe o fundador da organização, o monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, de 77 anos, reunido com cerca de 60 integrantes para apresentar uma transcrição do que seria um diálogo entre um sacerdote da própria associação e o demônio.
O ponto máximo é quando o papa Francisco se torna o assunto. O pontífice, que segundo os preceitos do catolicismo, tem de ser respeitado como a maior autoridade da Igreja, se transforma em alvo de chacota no tal diálogo. “E o Vaticano?”, pergunta o sacerdote do diálogo. Resposta: “Estou na cabeça. Ele é meu. Eu mexo na cabeça. Ele faz tudo o que quero. Ele é um estúpido. Ele me serve .” Pergunta o sacerdote: “Como será a morte dele?” Diz o demônio: “Ele vai escorregar e vai cair. Vai bater a cabeça. Mas ainda falta um pouco. Vai ser no Vaticano. E virá outro papa, Rodé (o nome citado é do cardeal esloveno Franc Rodé, de 82 anos, um dos críticos do pontificado de Francisco). E será bom.”
O exorcismo é aceito e praticado no catolicismo. Jesus Cristo, como diz as Escrituras, exorcizou e passou a incumbência aos doze apóstolos. Hoje, há cerca de 300 sacerdotes que o fazem no mundo, 10% deles no Brasil. Todos devem ter sido nomeados pelo bispo local. Na diocese da qual pertence Clá não há ninguém autorizado. Diz Juarez de Castro, pároco da Assunção de Nossa Senhora, em São Paulo: “O que se vê nesse vídeo é uma verdadeira alucinação, Clá ultrapassou os limites do que prega a fé católica.”
A tradição litúrgica admite a existência do diabo e a ele se deve renunciar. Mas, como explica o livro recém-publicado pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (Cnbb), Exorcismos: Reflexões Teológicas e Orientações Pastorais: “A Igreja reprova as várias formas de superstição, a preocupação excessiva com satanás e os demônios. A Igreja sempre preferiu priorizar em sua pregação a Boa-Nova do Evangelho. Ela não coloca em destaque a fala sobre o maligno e sua ação contrária ao reinado de Deus.”
Os Arautos do Evangelho são uma dissidência da TFP. Ao longo de 30 anos, Clá participou da TFP e chegou a ser uma espécie de secretário particular, o homem de confiança de Plinio. Quatro anos depois da morte do Plínio ele criou os Arautos. Hoje a organização está presente em cerca de 50 países.”

ACHEI QUE NUNCA MAIS TERIA O AMOR DA MINHA FILHA

Lembro-me como se fosse hoje. Agosto, ano de 2009…

Tudo começou com a minha filha chegando em casa um dia após a aula, onde estudava no 6° ano, ela tinha 11 anos de idade, com um pacote de presente em mãos, feliz da vida, pois tinha ganho um sorteio. Pois bem, fiquei feliz também e abrimos o tal presente… uns papeis dentro, uma foto de nossa senhora de Fátima e um convite para participar de um projeto chamado “futuro e vida” com aulas de flautas, artes, teatro, takendow…

– Nossa, legal filha, uma instituição religiosa, isso é ótimo! Atividades nos finais de semana. Será muito bom porque também irá te tira do computador e TV um pouco. Você quer ir?

– Ah… acho que não mãe, nenhuma amiga vai. Só eu fui “sorteada”.

– Ah mas se for por falta de companhia a mãe pode ir com você.

Ela deu um sorriso e aceitou. Liguei para o número que tinha no papel e fui muito bem atendida. Pedi algumas informações, me ofereceram transporte que sairia da frente do colégio no sábado. Eu agradeci e disse que iria com o meu carro mesmo.

Sábado fomos eu e minha filha até a casa, em santa felicidade, na cidade de Curitiba. Chegando lá, confesso que fiquei meio assustada em ver tantas meninas tão novinhas. Crianças já de hábito e com aquelas botas e com uniforme. Fomos nos apresentando. Elas explicaram um pouco sobre o projeto e as atividades, então minha filha foi participar para experimentar. Ali passamos à tarde de sábado. Sim, fiquei com ela observando e acompanhando a tarde toda. Via muitos quadros de 3 pessoas pelas paredes 2 senhores e 1 senhora e alguns de nossa senhora. Enfim acabou com uma missa e um saboroso lanche. Confesso que saí de lá maravilhada pela conduta das meninas e a missa rezada de uma forma muito tradicional.

Viemos embora com o combinado de que no dia seguinte, domingo, ela iria novamente, dessa vez sozinha com a carona das irmãs que passariam na escola pegar ela e outras crianças obviamente. Assim foram 4 finais de semana, minha filha indo com as irmãs pegando ela e outras crianças em frente a escola Monsenhor Ivo Zanlorenzi, onde ela estudava. Após esse mês, minha filha fez uma prova na qual passou e pode permanecer frequentando o projeto. E assim foi. Ela ia nos finais de semana. Eu e meu marido sempre acompanhávamos, íamos às missas, participávamos de cursos, palestras, teatros.

Em novembro veio o convite para conhecermos São Paulo, eu, minha filha e meu marido. Então fomos passar um final de semana nós e outros pais com suas filhas. Único gasto seria o lanche na viagem e a hospedagem restante por conta deles. Chegando lá todos encantados e maravilhados com tanta beleza. Muita riqueza. Eu pensava… – Nossa! De onde aparece tanto dinheiro?! A minha paróquia faz tantos bingos pra fazer uma pintura e lá tudo crescia muito rápido. Lembro bem que durante a viagem as irmãs diziam rezem muito para o monsenhor (João Clá o Fundador) aparecer, se ele aparecer é porque vocês são pessoas de muita fé. Então, em um determinado momento, estávamos dentro da igreja e começou uma movimentação. Um corre, corre e um coro que dizia: – Ôhhhh… Nossaaaaa!

Fomos ver e lá estava o tal monsenhor em uma janela no alto e todos idolatrando ele. Mais uns minutos e esse homem começou a jogar bala e chocolate para as meninas que se “matavam” para pegar. Tinham umas que saiam até machucadas. Bom, nós não sabíamos do que se tratava. Pensamos: – Ahh… talvez seja um ritual para alegrá-las.

Então o ano de 2009 foi acabando e elas vieram até a minha casa falar que a minha filha era uma ótima apostolada, como chamavam as meninas do projeto e que estavam lhe concedendo uma bolsa no colégio dos arautos para o próximo ano. Ficamos radiantes e felizes. Nossa filha que estudava em uma escola estadual agora ganhou uma bolsa para uma escola particular, reconhecida internacionalmente e de freiras. Ela quis e nós também.

E assim foi para o ano de 2010, mas com uma condição da nossa parte. Ela ia pela manhã e voltava à noite todos os dias para casa. E foi aceito. Mas ela insistia muito em morar lá e as irmãs também sempre falando. Eu falava sempre não, tinha de ser do meu jeito, ela em casa todas noite. E permaneceu assim. Porém, nos finais de semana, minha filha sempre estava escalada para algo e tinha que passar sábado e domingo, dormia lá nessa noite. Sempre a mesma história. Era a tal vocação.

O tempo foi passando e durante esse tempo, mais eu do que meu marido sempre estava nas missa e cursos. Esses cursos só falavam em dona Lucilia, Plinio e joão Cla. A minha filha pedia muitos livros dessas 3 pessoas. Dizia que eles faziam milagres, que era pra eu pedir muito, com fé pra eles quando eu precisasse de algo. Eu acabei me envolvendo muito e acreditando em muitas bobagens pra ficar ao lado da minha filha.

Até que um dia as irmãs me convenceram que o melhor lugar para a vocação da minha filha seria morar lá. Como eu disse, a insistência era grande. E assim foi ela morar na sede de Curitiba em junho de 2012, com 14 anos de idade.

Eu sempre cobrava muito os finais de semana em casa, mas era muito difícil ela vir. Sempre com muitas tarefas e responsabilidades, sem contar as inúmeras viagens que fez nesse período para São Paulo só com as irmãs. Era um tormento e uma choradeira quando eu não a deixava ir, ficava em casa de cara feia e emburrada só com o terço na mão.

No fim daquele ano ela terminou o ensino fundamental e iria para o ensino médio em 2013. Vieram as irmãs novamente alegando que ela precisaria ir para São Paulo morar lá e estudar, pois em Curitiba não tem o ensino médio. De imediato falei que não. Porém me pediram para pensar e assim fiz. Depois de muita conversa em casa, minha filha me disse:

– Mãe, por favor, é minha vocação. Você quer o que para mim no futuro? Quer que eu seja o que?

Eu respondi:

– Feliz.

Ela me olhou e disse:

– Então minha felicidade mora lá. Por favor me deixa ir. eu preciso seguir minha vocação.

Agora ela estava com 14 anos e meu coração de mãe iria negar um filho à vocação religiosa? Não! Então decidimos em família que ela iria. E assim foi.

Minha filha foi morar em São Paulo e para isso as irmãs prometeram nos levar sempre que possível para visitá-la. E fomos com elas, sempre que dava, elas convidavam e o único custo era hospedagem. Isso até minha filha completar a maioridade. O primeiro ano que ela morou nos arautos até que foi tranquilo. Nós íamos sempre visitá-la em reuniões da escola, em datas especiais, como dia dos pais, dia das mães. Ela ligava bastante pra casa e nos atendia sempre que ligávamos.

Já nos demais anos, as vindas para casa foram ficando cada vez mais difíceis. Uma vez minha filha chegou a me dizer que não conseguia sair de lá para vir pra casa. Eu questionei e ela me dizia que não sabia, mas que não conseguia sair de lá. Que tínhamos que entender que ela tinha muitas tarefas por lá. Mas eu sempre cobrava dela para que desse um jeito de ir para casa, pois precisava dela, sentia sua falta, seu irmão sentia sua falta. Após muita insistência ela acabava vindo com as irmãs de avião ou de ônibus. Como já não compravam mais a passagem para nós pais irmos para lá, igual no início, já não era tão fácil, tínhamos que ir com o nosso próprio carro, ônibus, etc… inúmeras vezes alegavam que não tinha carro disponível para nos levar.

Foram passando os dias, comecei a me preocupar pois as ligações diminuíram, as visitas também, o afeto, o carinho… o abraço então, não existia mais quando nos encontrávamos. Era apenas um tapinha nas costas e um salve Maria. Isso começou a me incomodar, principalmente as ligações.. pois só ligava para pedir dinheiro. Comecei a me preocupar, pois senti que algo estava errado, que estava perdendo minha filha… Aí vinha a questão da vocação! Ahh, a tal vocação.

No início de 2016 comprei passagens aéreas de ida e volta para que ela viesse para casa no aniversário do irmão. Tudo certo, tudo combinado, tudo acertado. Mas dois dias antes ela ligou dizendo que achava que não viria, pois na mesma data da viagem eles iriam para o mar e era muito importante para ela ir com eles, mas que em outra data ela viria e que era para eu tentar trocar as passagens. Fiquei muito brava, muito triste, muito revoltada, chorei muito, e pensava como pode trocar uma visita à família, aniversário do irmão por um passeio no mar… mais um ponto negativo e mais uma pulga atrás da orelha… ela não veio. Perdi as passagens, pois não tive nem cabeça para ir atrás e tentar mudar.

Passou um tempo e ela apareceu de surpresa no meu portão com outras duas irmãs. Claro, acolhi ela como sempre, com muito amor e carinho, mas como sempre recebi apenas um salve Maria e uns tapinhas nas costas. Nada de abraço afetuoso. Era de cortar o meu coração. Pois bem, nesse mesmo dia as irmãs vieram com um papo de que agora ela era maior de idade e tinha muitas funções lá dentro, que ficaria mais difícil vir pra casa nas férias e que não dormiria mais em casa durante essas visitas. Não concordei e falei que enquanto eu fosse viva, ela iria sim passar férias em casa e iria sim dormir em casa. Que se não fosse assim elas podiam ir embora sem a minha filha, pois ela não voltaria. Elas concordaram e assim ficou combinado. Mas ainda tinha uma preocupação e sentia que algo não estava certo.

Porque não vir pra casa nas férias? Até onde eu sei até os padres tiram férias durante o ano e porque só lá nos arautos do evangelho não podem vir pra casa? Isso me incomodava.

Uma vez uma irmã me disse que fazia 6 meses que não falava com sua família por falta de tempo. Como assim?! Isso não tem cabimento.

Em julho de 2016 ocorreu uma morte dentro das dependências da ordem II. Uma moça que caiu da janela enquanto a limpava no 3º andar do “castelo”. Até onde eu sabia essas meninas, nem as suas próprias roupas lavavam, quem dirá uma janela. Essa foi a explicação. Uns falam que ela estava depressiva, outros que estava no quarto e há muito tempo não saía de lá e há quem diga que ela entregou sua vida, ou seja, se suicidou. Não tenho como provar isso, foi o que ouvi, mas o pior é que no mesmo dia de sua morte os integrantes dessa instituição já deram a ela o título de santa, pois já estava fazendo milagres no mesmo dia de sua morte, coisas sem pé nem cabeça que ouvia da minha filha durante visitas, sem contar a idolatria por Plinio, Lucilia e João Clá.

Foi então que, em maio de 2017 recebi vídeos desse povo falando e zombando do papa, fazendo “exorcismos”, do monsenhor obrigando meninas a fazerem os votos, batendo com folhas e com a mão nas meninas. Meu mundo desmoronou! Minha filha lá dentro desse absurdo todo, um local onde idolatram apenas o seu fundador, onde ensinam que tudo aqui fora é pecado e que a própria família a leva a pecar. Desejam a morte do papa Francisco nesses vídeos. Os vídeos saíram do ar e a pessoa que os publicou responde processo. Os arautos respondem o que sobre isso, ao serem questionados? Que é normal. As meninas em questão no vídeo estavam sendo exorcizadas enquanto outras riem e ficam filmando. Porque não pegaram o terço e não foram rezar nesse momento de joelhos? Enfim, fiquei horrorizada com o que vi nos vídeos e só queria saber de trazer minha filha pra casa. Graças ao meu esposo que foi sábio e me alertou que tínhamos que esperar as férias de julho para deixar ela em casa. Eu queria ir naquele momento buscá-la, mas ela com 19 anos e nós no território deles, jamais venceríamos. Em julho de 2017, com 19 anos, proibimo-la de voltar.

Precisei ir para outra cidade ficar longe de tudo e de todos, pois já tinha ouvido relatos de que eles voltam para buscar quem é maior de idade. Como aconteceu com outra mãe que tentou fazer a mesma coisa que fiz, após saber que seria proibida dela de voltar, manteve contato com elas que por sua vez a aconselhavam a fugir. Isso mesmo! Mandavam ela fugir da própria família.

Minha filha sabia do amor que tínhamos por ela e graças a deus nunca tentou fazer isso, mas tanto ela quanto eu precisamos de tratamento psicológicos e psiquiátricos na época. Tenho laudos até hoje. Tomei antidepressivos e remédios para dormir e minha filha também. Foi muito triste ver minha filha em uma cama implorando para voltar para esse local dizendo que a vida dela estava lá. Minha filha me disse que eu estava acabando com a vida dela e com sua vocação. Ofereci outra congregação, pedi para ela conhecer pois não iria tirar a vocação dela e a resposta era não, que sua vocação é só nos arautos. Como assim?! A vocação é a deus ou a congregação? Ela ficou muito revoltada. Não aceitava nada no início. Ia nas missas em outras igrejas mas sempre com cara feia, brava e emburrada.

Oferecemos a ela participar da vida em comunidade, dar catequese, grupo de jovens e nada ela aceitou até hoje. Então cadê a vocação?

Foi muito difícil os primeiro 6 meses. Ela estava doente e em tratamento, eu também. Fui até encostada pelo INSS do meu trabalho. Minha vida virou de ponta cabeça, não achava que seria tão difícil.

Mudei de cidade com minha filha e meu outro filho. Fui para casa dos meus pais que me deram o maior apoio. Meu marido ficou sozinho em nossa cidade natal. Foram os piores 6 meses da minha vida, tentando reanimá-la, reerguê-la, mas foi difícil. Por um momento achei que nunca mais teria o amor de minha filha, foi difícil para ela se libertar de tudo que viveu lá dentro, ensinamentos absurdos, roupas, costumes, penteados, fala…  foi um verdadeiro sufoco. Eu tinha muito medo deles virem atrás de mim, mas graças a Deus, acredito que me escondi bem porque se tivesse ficado na minha casa eu teria perdido ela, pois algumas vezes os vizinhos viram eles em frente a minha casa durante esse período. Meu marido entrou em contato com os Arautos pedindo que encaminhassem tudo o que era dela e claro mandaram os documentos, uns papéis, um relógio, um dicionário e só. Até hoje esperamos o notebook e a flauta transversal dela, me encaminharam um bilhete alegando que ambos estavam estragados. Tudo bem. O importante é que hoje ela está bem psicologicamente, se reestruturando e se restabelecendo nesse mundo desconhecido que é aqui fora para eles.

Eu poderia estar quietinha no meu canto, pois minha filha está bem e comigo, mas fico indignada com a forma como os arautos agem: atraem as crianças, destroem seus sonhos, tiram os filhos dos pais e da família aos poucos. É muita crueldade. Outras mães estão sofrendo, muitas famílias arruinadas por perderem seus filhos para essa instituição. Porque pegar essas crianças tão pequenas? Isso é uma judiação! Cadê a justiça? Queremos uma resposta para tudo isso.

Esse é o meu relato e espero poder colaborar para colocar um fim a todos esses abusos.

Att. Mãe de ex arauta.

RESPEITO – ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

Após vários meses observando o comportamento de seus filhos e de outros jovens, que ainda integram os Arautos do Evangelho, e de jovens que já abandonaram essa entidade, pode-se perceber que não se trata de uma relação respeitosa, que valoriza a condição mental íntegra, permitindo à criança, ao adolescente ou ao jovem que lá se encontra fazer escolhas baseadas em julgamento acurado e desimpedido.
Chama a atenção o fato de que TODAS as crianças que ingressam nessa entidade tem vocação religiosa. Recebem hábito quando criança, afastam-se da família… E a criança passa a acreditar nessa “vocação”. Como isso seria possível? Mais provável que os Arautos do Evangelho, através da manipulação, “desenvolvem” a crença da vocação religiosa nessas crianças. Vejamos:
– Dificultam os encontros dos filhos com seus pais, irmãos e demais familiares, invocando desde doenças inexistentes, compromissos de última hora etc, induzindo a criança a acreditar que se ela mantiver relacionamento com a família e com o mundo externo, estará a trair a sua decisão de seguir os votos religiosos.
Importante destacar que o direito fundamental à convivência familiar, respaldado no artigo 227 da Constituição Federal e assegurado pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), valoriza as relações afetivas da família, vez que, é na família que a criança encontra refúgio e apoio. É no meio familiar que a personalidade da criança se estrutura.
– Matérias do ensino fundamental e ensino médio são baseadas em textos de Plínio Corrêa, extraídos de seus livros. São excluídas leituras de escritores como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, José de Alencar, Oswald de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, entre outros, cobrados em vestibular, além de retirar a oportunidade de os alunos conhecerem a riqueza literária que há nessas obras. Aqueles que são mandados de volta pra casa ficam perdidos e em crise diante de um conteúdo que nunca viram, além de não entenderem porque de repente deixaram de ter a tal “vocação”. É preciso lembrar que os contextos respeitadores da dignidade são mais includentes e abertos às diferenças, menos patrulhadores, menos padronizadores, menos opressores.
É inaceitável qualquer ato que viole ou contrarie o direito à liberdade, o respeito e a dignidade das crianças e dos adolescentes, garantidos pelo ECA. O art. 17 dispõe que o direito ao respeito será garantido se observada a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.
Portanto, o direito ao respeito compreende a preservação da integridade física e psíquica, que possui especial relevância tendo em vista a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, não representando a mera não agressão, além da integridade moral, entendida como a preservação dos valores morais da criança e do adolescente.

Rosiley Piva

EMANUEL SE ENCANTOU COM ELES

No último dia de missão, quando teve aquela belíssima coroação em nossa Paróquia com os Arautos do Evangelho, Emanuel ficou deslumbrado e disse já sei o que quero ser mamãe, quero ser cavaleiro de Nossa Senhora, como ele já tinha amor e devoção a Ela o bichinho foi atrás deles perguntando como podia entrar , lembro-me como se fosse hoje , ele passou o meu telefone para um deles, mas eles não ligaram. Um mês depois, uma mãe que já tinha o filho lá o ajudou a entrar e o resto dá história vocês já sabem, mas graças a Deus e a Nossa Senhora as vendas dos meus olhos caíram e a verdade apareceu e pude resgatar meu filho a tempo, no primeiro momento fiquei igual a você achando que estava sendo egoísta com ele e atrapalhando os planos de Deus na vida do meu filho, mas Nossa Senhora com ternura de mãe tem me mostrado a cada dia que fiz a coisa certa. Meu filho pediu a ela que eu o tirasse e ela o atendeu. E como disse o padre que conversei, não posso me calar diante a verdade, hoje eu conheço a verdade e não posso me omitir, calar diante dela, depois que tudo que ouvi de varias mães e dá boca do meu próprio filho não posso ficar calada , tenho que fazer algo para tentar ajudar essas crianças que como Emanuel rezam para seus familiares os tirarem de lá.
Que Nossa Senhora nos cubra com seu Manto nessa batalha e São Miguel arcanjo combata conosco.

Mãe de ex Arauto.