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Uma série de denúncias de pais e ex-integrantes, apoiadas em vídeos que mostram cerimônias agressivas envolvendo meninas, colocam em xeque as práticas dos Arautos do Evangelho, organização ultraconservadora católica também suspeita de corrupção

Em nome da fé, a seita ultraconservadora católica Arautos do Evangelho corrompe, agride, humilha, assedia e abusa de votos — em especial meninas adolescentes —, enquanto arrecada dinheiro e dissemina a ideia de que o apocalipse cristão está para chegar. Há até denúncias de estupro. Aos poucos, essas queixas ganham o conhecimento da opinião pública, da Justiça e das autoridades eclesiásticas, rompendo uma rede de silêncio que dura mais de 20 anos e atinge 78 países, em especial no Brasil. Nos Estados Unidos, o FBI já recebeu queixas e uma investigação está para ser iniciada — IstoÉ entrou em contato com o agente federal encarregado.

Nascida de uma cisão da também ultraconservadora denominação religiosa brasileira Tradição Família e Propriedade (TFP), os Arautos do Evangelho surgiram em 1997, assumindo um caráter mais religioso e menos político que seus antecessores. Enquanto a TFP levanta bandeiras contra temas espinhosos da vida contemporânea, como aborto, feminismo, reforma agrária, socialismo, minorias, cidadania LGBTQ e multiculturalismo, os Arautos são uma espécie de TFPdoB, voltados para uma visão de mundo limitada pelo conceito do que chamam de “Reino de Maria”, que surgiria após um período de grande instabilidade chamado de “bagarre” (do francês, luta ou caos), anunciado nas aparições de Fátima, em Portugal, em 1917. Ou seja, enquanto o mundo avança, eles se preparam para viver em comunhão com Deus em uma existência que misturaria as sequências de “Mad Max” e de “Senhor dos Anéis”. Para tanto, instalam seus devotos em “castelos”, grandes prédios que imitam palácios de estilo gótico que servem de moradia e madrassal cristão — quatro deles nos arredores de São Paulo, abrigando 500 alunos. Existem escolas em 16 países.

Ora, qualquer um pode acreditar no que quiser. É uma questão de fé – e ela deve ser respeitada. O problema são as acusações de crimes perpetrados nos “castelos”, enquanto o fim prometido não chega. Em 2017, um grupo de 50 mães de vítimas dos Arautos denunciou o grupo ao Ministério Público de São Paulo e ao Vaticano. A investigação secular segue em segredo de Justiça, assim como a religiosa. Mas novos casos apareceram. Em uma das denúncias, o fundador, monsenhor João Clá Dias, de 80 anos, é acusado de abuso sexual por uma ex-integrante. Órfã de mãe, uma jovem canadense, hoje com 27 anos, veio ao Brasil estudar com os Arautos. Ela relata em carta que, quando tinha 12 anos, foi abusada por João Clá, que tocou seus seios e nádegas e a beijou. Em 2014, aos 22 anos, ela conseguiu se afastar da congregação. Sua irmã mais velha, que era sua tutora, permaneceu. Sua denúncia está registrada. Dos 46 relatos entregues aos MPs e secretaria estaduais de educação, quatro são de abuso sexual. Os outros envolvem maus-tratos, alienação parental e abuso psicológico. Houve até um registro de suicídio. Em julho de 2016, Lívia Uchida, de 27 anos, teria se jogado de uma janela do quarto andar do convento Monte Carmelo, em Caieiras.

Vídeos obtidos por IstoÉ mostram o monsenhor Clá agredindo meninas com tapas. Em um deles, uma adolescente mantida segura pelos braços enquanto é filmada por adultos, diz: “Eu tenho que sair”. São cenas de pura humilhação. Ela é forçada a fazer votos de obediência, castidade e pobreza. Em outro vídeo, uma menina é forçada a beijar os pés do religioso. São os “ósculos sacrais”, beijos sagrados dados no líder como forma da vítima obter uma graça, seja lá o que isso quiser dizer. Na lei escrita para uma sociedade laica e plural, isso é crime.

Sem absorventes

Em Carapicuíba, na Grande São Paulo, a dona de casa Flávia Silva Nascimento, de 42 anos, penou para resgatar sua filha S., hoje com 17 anos. Procurados por pregadores dos Arautos que visitavam a Paróquia São Lucas, a família, que é católica praticante, viu a oportunidade de colocar a filha em uma boa escola religiosa. Não foi o que ocorreu. Aos 12 anos, S. passou por uma lavagem cerebral. Em vez de estudar, ela tinha que rezar e decorar os textos de João Clá e Plínio Côrrea de Oliveira (1908-1995), fundador da TFP. Vivendo sob uma disciplina rígida, inspirada em normas militares, ela não tinha sequer acesso direto a absorventes íntimos. Ela e suas colegas não tiveram noções de saúde e orientação sexual. Em vez disso, foram obrigadas a fazer seus “votos” como se fossem religiosas adultas e responsáveis por si. Durante as férias da família na praia, a adolescente se recusou a tirar a túnica dos Arautos. Só pisou na areia no último dia. Ela estava de botas.

Alérgica e com crises de asma, a saúde de S. se deteriorou. O alerta foi dado pela médica com quem a família costumava se consultar. A mãe resolveu resgatar a filha, mesmo contra a sua vontade inicialmente, após assistir um vídeo em que João Clá aparece como se estivesse praticando um exorcismo em uma garota que é segura pelos braços. A menina parece assustada e é estapeada pelo religioso. “A família entrou em crise”, conta a mãe, ao lembrar do processo de retirada da filha do jugo dos Arautos. S. fugiu de casa duas vezes. Até que aos poucos entendeu que a vida era melhor do lado de fora. Antes com boas notas, percebeu que havia ficado para trás, pois não havia aprendido química, física, biologia, história. Mesmo assim, ela veste roupas mais conservadoras que a mãe e conserva alguns cacoetes disciplinares. S. relata que a adoração a João Clã atinge níveis extremos. Ela e suas colegas ingeriram água que, afirmaram seus superiores, teria sido deixada numa bacia após o monsenhor se enxaguar. “Tive problemas emocionais, cheguei perturbada, mas hoje estou melhor. Os Arautos falam que a gente tem que sofrer. Não acredito mais nisso”, diz.

“Tive problemas emocionais. Os Arautos falam que a gente tem que sofrer” S., de 17 anos, que voltou para casa após 3 anos de internato, onde adoeceu

Há também o brutal caso de um fiel que foi drogado e internado em uma clínica psiquiátrica sem autorização da família. Morador da cidade paulista de São Carlos, Alex Ribeiro de Lima, hoje com 39 anos, contou em vídeo sua desgraça. Ele tinha 15 anos quando ingressou na TFP, mudando para os Arautos logo depois, onde atuou como leigo. Já adulto, sua função era levantar fundos, missão que o levou para Portugal e Itália. Eficiente no trabalho, beijou os pés do monsenhor e participou de uma cerimônia de “sagrada escravidão”. Sua vida ruiu após 18 anos de submissões. Aos 32 anos ele foi internado à força em uma clínica para drogados em Jundiaí (SP), depois de uma crise de ansiedade. Alex mal se lembra do período, pois ficou sob forte medicação, sem que sua família tivesse conhecimento. Só teve alta depois que sua irmã descobriu tudo e ameaçou chamar a polícia. “Fiquei amarrado e tive muito medo. Eu dizia que não era louco”, conta. Alex chora e pede desculpas quando relata seu calvário pessoal, que terminou em abandono. “Eles me usaram e me chutaram. Só querem controlar as pessoas”, diz.
Diante de tantas barbaridades, outros crimes também aparecem. Ex-integrantes afirmam ter visto armas de fogo em alguns castelos. Seriam revólveres, pistolas e até escopetas. A relação dos artefatos com a atividade religiosa não está esclarecida. Tampouco se sabe da origem das armas. O ex-arauto Daniel Del Rio, de 46 anos, conta que houve também contrabando e evasão de divisas. Dinheiro de doações entraria no Brasil oculto nas roupas dos arautos na volta de apresentações da orquestra e viagens de arrecadação. O dinheiro serviria para apressar as licenças de construção e ampliação dos mosteiros, além de agrados monetários para autoridades civis e religiosas. Ex-TFP, Del Rio foi dos Arautos por seis anos e saiu em 2002. “Quero derrubar essa organização”, diz em áudio enviado da Espanha, onde voltou a viver.

Culpa da vítima?

Em meio à apuração da reportagem, houve uma tentativa de censura prévia. Advogados da entidade entraram com um “pedido de tutela antecipada” para impedir qualquer publicação sem ouvi-los — o que foi negado pela Justiça. Procurados por ISTOÉ, a entidade só se manifestou por meio de seus representantes legais e por escrito.

Sobre as acusações de maus-tratos, exigem provas e respondem com retaliações legais. Os vídeos estão aí. Eles argumentam que ninguém foi agredido e que as imagens foram captadas de “maneira ilícita” e em “contexto da piedade privada, no âmbito das imemoriais práticas litúrgicas da igreja Católica”. Também dizem que as alunas pediram por tal procedimento, Ou seja, jogaram a responsabilidade para as vítimas. A argumentação dos advogados poderia até ser usada por radicais muçulmanos para justificar o apedrejamento de mulheres até a morte. Quando perguntados sobre eventuais punições aos envolvidos, alegam que “a autoridade competente para avaliar esse tema é a eclesiástica”. Consideram-se vítimas de perseguição religiosa de uma minoria de descontentes. Puro cinismo. Bater em criança é crime no Brasil, assim como abusar sexualmente, mal-tratar e impedir o convívio delas com os pais. O dia que os Arautos se purificarem das máculas de seus integrantes, o que sobrar será mero conservadorismo.

ASSISTA AOS VÍDEOS

Depoimento de Alex Ribeiro, ex-arauto que foi internado a força em uma clínica psiquiátrica após sofrer em estresse