Fui praticamente expulso dos Arautos do Evangelho – “convidado a retirar-me” – há quase ano e meio, numa terrível crise de depressão, ao tomar conhecimento dos desvios doutrinários que estavam se tornado cada vez mais evidentes, com os vídeos de reuniões e supostos exorcismos que circularam abundantemente a partir de Maio de 2017, há exatamente 2 anos. Como não minha consciência – e até mesmo a minha lógica e a minha fé – me impediam de aceitar tudo aquilo, tornei-me pessoa non grata, e minha condenação era então coisa certa.

Depois que saí dos arautos, passeis seis meses me tratando com anti-depressivos fortes, com remédios contra a ansiedade, não conseguia dormir e nem comer direito, passava horas e horas jogando video-games violentos, filmes e séries de terror, coisa que nunca gostei de fazer na vida. Sofri com síndrome de pânico, não queria sair de casa para nada, faltava ânimo até para tomar banho. Deixei o cabelo e a barba crescer, por desinteresse de me arrumar, e não conseguia conversar com ninguém.

Eu ia para a missa contra a minha vontade, pois entrar na igreja fazia-me recordar dos arautos, e isto causava-me uma dor horrorosa. Queria esquecer de absolutamente tudo que tivesse qualquer relação com eles, mas eles assombravam até mesmo os meus sonhos… Não fosse minha mãe, não sei onde eu estaria hoje, pois os arautos nunca me ofereceram qualquer ressarcimento por todo o tempo de serviço que doei a eles, nada menos que quase 20 anos de minha vida. Meus irmãos também me acolheram com muita generosidade, dividi quarto e armário com minha irmã, durante um período, e mais outro período fiquei com meu irmão e cunhada, no apartamento deles.

Assim foram os primeiros meses – um verdadeiro inferno, no qual cheguei a pensar em acabar com a vida – que voltei para o “mundo real”, na minha cidade natal, e não o “mundo surreal” que eles vivem lá dentro.

Depois deste período de tratamento médico e terapia, procurei um sacerdote arauto – no qual eu ainda confiava – para pedir ajuda financeira, pois sabia que não encontraria emprego a curto prazo, e precisaria fazer alguns cursos que me possibilitassem encontrar um trabalho razoável. Ele acabou me oferecendo – muito a contragosto meu – uma vaga para trabalhar em São Paulo, podendo eu ficar na casa de uma outra irmã, hoje terciária – família consagrada – dos arautos, que me havia convidado com muita insistência.

Não levou mais que mês e meio para eu perceber que aquilo não me iria ajudar nada, mas atrapalhar meu desligamento emocional e espiritual deles, pois estava tendo que tratar com eles diariamente, todo o período de serviço, morando numa casa onde as fotos de Plinio, Lucilia e João estavam por toda a parte, tendo que assistir missas celebradas por eles, e recebendo muito mal para as minhas necessidades financeiras. Sequer daria para alugar um quarto e prover minha alimentação, isto – repito – depois de entregar a eles quase 20 anos de minha vida.

Foi quando tive o descuido de fazer uma crítica ao modo como os arautos tratavam muito mal até mesmo aqueles egressos (apóstatas, chamam internamente…), pagando o mínimo do mínimo para pessoas que tinham se dedicado 10, 15 ou 20 anos lá dentro, sem receber nada por isto, nem mesmo o pagamento da Previdência. Aliás, a mesma situação de tantos, que também foram arautos, que se tornam “terciários” por medo de encarar o mundo, prova das amarras psicológicas com que eles mantêm tanta gente que tenta – sem sucesso – livrar-se deste passado miserável.

Com isto, só consegui que minha irmã me expulsasse da casa dela, a gritos, em duas situações, uma delas em plena madrugada, num momento em que nem sequer transporte eu tinha para retornar à pousada onde me havia refugiado temporariamente. Ela me indispôs com meu cunhado, e ambos se queixaram com o sacerdote que me “orientava”, levando-o a julgar que de fato eu não estava apto para trabalhar para os arautos naquele momento, algo que hoje dou graças a Deus de ter acontecido. No entanto, isto me revoltou e magoou profundamente, ver contra mim – por causa dos arautos – a minha própria irmã, que quando passou por circunstâncias muito difíceis e delicadas, eu fiz de tudo para ajudar, amparar, socorrer e encaminhar, para que ela conseguisse chegar onde chegou, ou seja, pelo menos casar-se e ter sua própria casa, de onde me expulsou tão friamente.

É neste sentido que consigo entender o ódio, a revolta e a mágoa de todas as mães, tias ou irmãs de todas aquelas e aqueles que são prisioneiros naquele mundo irreal, imaginário, e – de tempos para cá – fantasmagórico e diabólico – que são as sedes desta verdadeira seita, que um dia talvez tenha sido católica, mas que hoje em dia está mais que evidente que são todos uns loucos dirigidos por outro louco, que é o João Clá.

Nunca pensei que fosse passar por isto, mas passei. E isto me transtornou, de tal forma que hoje quero ser totalmente livre de todas os preconceitos e ideologias que aprendi naquela prisão, e desaprender tudo aquilo que aprendi, para aprender de forma diferente. Queria arrebentar aquelas grades todas, para libertar tantos meninos e meninas – especialmente a minha irmã – mas de nada me adiantará atitudes agressivas, pois isto apenas me separará mais e mais dela. Por isto busco qualquer possibilidade de alertar as pessoas desavisadas, que pedem a minha opinião.

Continuo desempregado, e meus parentes – tão criticados lá dentro – me ajudam a manter-me com o aluguel e alimentação. Preferi viver sozinho, pois esta foi a única forma que encontrei para encontrar meu equilíbrio interior e emocional, e refazer os meus caminhos. Hoje colaboro ativamente com minha paróquia, e procuro conhecer outros verdadeiros movimentos da Igreja, como a Renovação Carismática, ou a Opus Dei. Encontrei uma boa moça, que está me ajudando muito a organizar-me aqui fora, e nada é tão bom quanto sentir-se verdadeiramente amado, sem ser escravo de ninguém.