MEU CORAÇÃO DE MENINA SEMPRE AMOU MEUS PAIS

Meu coração de menina sempre amou meus pais. Em todo tempo que foi capaz de pulsar por alguém, mainha, painho e minha irmã estavam lá.
Eu tinha 10 aninhos quando passei a morar no Arautos. Foi tudo muito rápido, com dois meses de casa de apostolado já me mandaram para a casa de formação. Quem já morou nos dois tipos de casa sabe muito bem o choque de realidade que isso condiciona.
Até então, ninguém se opunha diretamente ao meu “apego à F”, mas quando fui para a segunda casa, tudo se tornou muito mais explícito: o ódio aos pais era claramente pregado a alto tom nos sermões, nos áudios, nas conversas. Qualquer sinal de apreço pela família lhe custaria um isolamento interno.
Foi nessa transição que se passou um fato muito curioso.
Fazia algo como duas semanas que tinha me mudado para o “êremo” de formação quando uma das mais velha me abordou:
– Você ama seus pais?
Eu escutei aquela pergunta e, na minha inocência, achei muito engraçada e nem sequer pensei duas vezes antes de falar:
– Claro (risos), por que não amaria?
A mais velha olhou para mim extremamente escandalizada, o que no momento não fez sentido algum para mim, que fiquei sem entender nada, mesmo que em nenhum momento tenha me sentido constrangida por não odiar meus pais. A mais velha continuou:
– Mas seus pais são santos?
Eu sabia que não eram, minha família nunca foi semelhante as dos comerciais de margarina, meus pais eram divorciados e bastante alheios à religiosidade. Mas isso não era motivo para odiá-los. Apesar de tudo, nunca me faltou nem amor nem carinho dentro de casa. Mesmo separados, os dois faziam questão de estar presentes na minha vida me educando, rindo juntos, aconselhando e apoiando.
Não menti, disse que não. Diante da minha negativa, ela me olhou com tom de razão e completou:
– Você não pode amá-los porque não são santos, você tem que amar o seu pai que é santo, que é “Papito”.
Mas criança é um ser incrível. Ainda com minha personalidade muito forte – como era novinha lá dentro, os Arautos ainda não a tinham destruído – disse com muita ousadia e segurança:
– Meu amor é grande o suficiente para amar quantas pessoas eu quiser, o amor que eu tenho por meus pais não diminuem em nada o que queira sentir por qualquer outra pessoa.
A mais velha ficou bastante chocada, respondeu com um famigerado “que horror!”, para o qual pouco liguei no momento. Contudo, mal sabia eu que isso me custaria um bom tempo de isolamento.
Isolamento não como existe na cadeia, em que se tranca o indivíduo em um quartinho pequeno e sozinho. Isolamento psicológico. Lá dentro isso é muito forte. As meninas apegadas aos pais são chamadas de mocorongas, sabugas, e por aí em diante. Muitas vezes escutava as meninas se referirem a outras e até a mim com esses termos.
A “sabugas” comiam o verdadeiro “pão que o diabo amassou” lá dentro, desde coisas simples, como serem as últimas escolhidas na queimada, a coisas com mais pesos, como serem as meninas que saiam com mais hematomas do “jogos” – que eram uma verdadeira pancadaria disfarçada de brincadeira – e serem privadas de evoluir de grupo, ou vestimenta, o que lá dentro era algo que significava muito.
Lá dentro as meninas que são mais valorizadas são as que mais brigam com os pais. Não era algo dito claramente, todavia era considerado bonito ter pais “problemáticos” e bater de frente com eles, mostrava “entusiasmo” e amor à “vocação”. As meninas gritavam e choravam no telefone e as pessoas de fora olhava e diziam, “fulana é boa, mas a F dela é tão ruim, tadinha”.
Eu, que acabei crescendo ali, via toda essa atmosfera mexer comigo. Eu tinha que escolher entre ser quem eu de fato era, uma pessoa normal, que amava minha família e não via mal nenhum nisso, em contrapartida teria que lidar com toda aquela pressão interna e o desprezo das minhas “irmãs de vocação”; ou, matava a minha essência e fazia o que a doutrina deles dizia, em troca faria cortejos, teria “convívio com Papito” e mais chances de ir morar nos Castelos e evoluir nas vestimentas.
Por mais ridículo que pareça hoje, eu escolhi permitir que destruíssem meus princípios e personalidade, era bem mais fácil do que suportar a pressão. Passei a gritar com meus pais no telefone e evitar ao máximo qualquer contato com eles, mesmo não vendo sentido nenhum naquilo. Talvez quisesse acreditar que aquilo me fazia santa, porque mesmo se não fizesse, pelo menos me garantiria paz.
Lembro como se fosse agora, o primeiro abraço que rejeitei da minha mãe. Imagino o quanto deve ter sido dolorido e humilhante para ela ser afastada do abraço de sua filha quando só queria lhe dedicar todo o seu carinho e afeto. Talvez tenha sentido até que sua dedicação e amor não serviam mais. Ao logo do tempo vi minha mãe assistir nossa relação, tão carinhosa, se reduzir e provedora e sustentada.
Todavia, isso não significava que não amava mais meus pais, que não sentia saudade e não quisesse vê-los, só significava que todo esse sentimento era reprimido ao máximo para que não transparecesse. Reprimido até fazer mal até para minha saúde física.
Quando saí ninguém da minha suposta família aráutica foi capaz de me estender a mão, para eles pouco importou se eu estava bem ou mal, porque não são, nem nunca foram minha família. Tudo não passou de uma farsa para sanar buracos com tampos superficiais. Pasmem se quiserem, mas aqueles que fiz sentirem-se um lixo no pátio do Thabor foram os únicos que me apoiaram quando não sabia fazer nada além de chorar.
Mainha, painho e minha irmã : minha família toda errada e pecadora, que tanto foi julgada e desprezada dentro dos Arautos, foram eles que levantaram minha cabecinha de princesa e colocaram de volta minha coroa, que foi cruelmente roubada, no lugar que é dela. E hoje, o eu de 6 anos atrás não existe mais para se desculpar, entretanto, venho por meio deste reiterar-me com minha família, painho, mainha e minha irmã, e quem sabe até reiterar-me não só por mim, mas por todas as meninas que ainda estão lá dentro e não tem nem noção do que fazem.
Mãe, pai, (censura no nome da irmã), o que tenho para dizer hoje é desculpa, obrigada por me ajudarem a levantar e ser quem sou hoje. E querem saber mais? Não me importa que não somos o perfil do comercial de margarina, vocês são a melhor família do mundo. Amo vocês!

17 comentários em “MEU CORAÇÃO DE MENINA SEMPRE AMOU MEUS PAIS

  1. Os AE tentam tirar o amor que nossos filhos naturalmente sentem por nós (a FAMÍLIA verdadeira deles) mas não conseguem! Imagino o conflito no coração dessas crianças, sendo obrigadas a ter um pai como João Cla, a mãe apenas nas fotos de Lucília e morrendo de medo sempre. Perturbador…
    Mas quando nossos filhos não prestam mais para os Arautos é para casa que eles voltam e encontram a família com os braços e coração abertos.
    Que todos possam voltar para suas casas e desfrutar do amor verdadeiro.

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  2. Não consigo descrever outra coisa a não ser revolta com esse relato , quanta triste no meu coração, repúdio que nossa senhora te abençoe grandemente jovem, pai e mãe é o maior tesouro que Deus deixou nessa terra louvo e agradeço a Deus todos os dias de ter aberto meus olhos e tirar minha filha deste inferno na terra.

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  3. Emocionante demais.. Deus trouxe essa jovem de volta pra sua verdadeira família e, com essa capacidade incrível de se expressar, nos ajuda a entender o que realmente acontece, internamente, nos Arautos do Evangelho, longe dos olhares dos pais e das autoridades.
    Lamentável saber que ainda existem muitas jovens aprisionadas mentalmente nos Arautos do Evangelho, vivenciando esse drama que foi relatado aqui.
    Com programação mental típica de uma seita, os Arautos do Evangelho praticam, entre outros abusos, o isolamento e a alienação.
    Os Arautos ainda terão que se explicar e responder por por todas essas práticas.

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  4. Não me conformo com isso!!! Crianças manipuladas, amedrontadas e instigadas a adorar um homem em detrimento da sua própria família, é muito injusto, elas não têm defesa!!! Senti isso na pele, deixei meu filho com eles, lindo e alegre, e pouco tempo depois o encontrei triste e pálido, sem nem querer chegar perto de mim, sem brilho nos olhos, sem me dar um abraço, na verdade ele devia estar sofrendo por dentro, pensando que tinha que abandonar toda uma história de amor e união com sua verdadeira família pra viver uma nova vida, na verdade uma farsa, instalada de baixo do nosso nariz pra roubar nossos filhos de forma cruel e desumana, totalmente contra os principios cristãos, não é possível que pessoas que falam e demonstram viver o caminho de Deus possam acreditar que estão fazendo as coisas certas, acho que é pq tbm passaram pela mesma coisa e agora trabalham por esta causa sem sem lógica e sem fundamento pra arrebanhar a maior quantidade possível de crianças inocentes pra viver junto com eles nesse mundo de fantasia, chefiado por esse João Clã dos araques!!! Cada dia fico mais indignada com as revelações e testemunhos do acontece lá dentro daquelas masmorras. Sinto muito pelas mães que hoje já sabem da verdade e não têm seus filhos nem pra um abraço😢😢😢 É de cortar o coração!!! Que nesse dias das mães, Deus posso acalentar seus corações dessa tão triste realidade e que isso tudo se reverta o quanto antes. Que o verdadeiro amor prevaleça na mente de todos os que estão enfeitiçados e que um dia possam voltar pra sua verdadeira família, de onde nunca deviam ter saído!!!

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  5. Por mais que uma vocação religiosa (que não é o caso de muitas crianças que estão lá)exija clausura, o que acontece lá é inadmissível! Ensinar que a família é quem pode fazer deles menos Santos e não ensinar no mínimo a rezar pela ” conversão” deles?!
    Que Deus abençoe para cada dia mais famílias serem alertadas sobre essa falsa ordem religiosa, e para que as famílias que ainda tem seus filhos lá possam ter a alegria de te-los de volta.

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  6. Aqui tudo foi tudo bem sutil. Meu filho de fato só percebeu quando eu contei pra ele o que estava fazendo. Colocando tudo que amava de lado, frio e apático a qualquer notícia ou festividade aqui da nossa família.
    Pra mim era uma dor enorme ouvir ele dizer que morava no céu e quando voltava pra casa estava no inferno, que as pessoas são ruins e que ja estão condenadas, o primeiro encontro onde rejeitou meu abraço. Aquele filho carinhoso estava deixando de existir. Hoje ele me agradece por estar em casa. Disse que além de confuso estava triste naquele lugar. Tinha medo de não ser o melhor e ser rejeitado la dentro. Disse que tinha que ter duas caras, uma porque me ama e a outra de quem não ligava pra nada aqui fora.
    Triste que muitos pais ainda estão encantados e com uma venda nos olhos.

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  7. E.até hj.a minha filha está dentro dos.A.E. uma menina fria sei coração não tem a seu próprio.sentimento .porque eles A.E .tirou da minha filha .o carinho de família tds a sua libertada de vida ..Hj.e um dia tão especial p.está feliz só que não estou muito triste.a minha filha não está aqui comigo.Dia da mãe

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  8. Tantas foram as vezes que meu coração ficava esmagado em meu peito , doía, chorava por horas , eram avisos de algo estava errado e eu tinha que agir , mas como terciário naquela época, estava cego e achava que se tomasse uma atitude contra a “SEITA” Arautos estaria pecando , achava que as minha vontades eram influenciada pelo “inimigo” de Cristo.
    Então eu me aproximava de minha filha e peguntava-lhe , filha quer ir embora daqui , vamos para casa ? E a resposta era pronta NÃO papai estou feliz aqui … E mau sabia eu o inferno que ela suportava e suporta até hoje para alcançar uma santidade e promover a santidade de uma trindade insana . Lucília uma laranja , Plínio um demente e João um lobo em pele de cordeiro, astuto e ardiloso como satanás. Eu creio que a Bagarre tanto proclamada por João vira , mas vai vir com o peso da mãos de DEUS sobre eles e nossos filhos serão libertados desse cárcere.

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  9. Uma menina sempre vai amar seus pais, porque eles sempre querem o melhor para sua princesa. Que os AE digam que ñao e influencien em fugir da pais dizendo que eles são a verdadeira familia é completamente falso e errado, porque cuando abandone a seita (graças a Deus) os AE ñao vão apoiar al ex membro. É isso uma verdadeira familia? Ñao, é um engano. Ademais, uma menina precisa de amor e compreensão da sua familia para crescer feliz, ñao de uma disciplina militar que ñao faz mais que distorcer a infância. O amor de os pais é verdadeiro amor, ñao de os AE que manipulan crianças. Um post muito emocionante para mim. Um grande abraço!! ❤️ S2

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  10. Hoje eu vi algumas postagens das mães que ainda estão com seus filhos dentro das prisões dos AE. A palavra saudade era comum em todas as publicações.
    Vamos rezar para que a verdade chegue à elas e possam no próximo ano ter a alegria que tive hoje, meu filho de volta em casa.
    Deus não precisava, mas decidiu ter uma mãe. Que Nossa Senhora passe à frente dessa luta.

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  11. Una niña siempre va a amar a sus padres, porque ellos siempre quieren lo mejor para su princesa. Que los AE digan que no y que influencien en alejarse de los padres diciendo que ellos son la verdadera familia es completamente falso y equivocado. Porque cuando abandone la secta (gracias a Dios) los AE no van a apoyar al ex miembro, ¿es eso una verdadera familia? No, es un engaño.
    Además, una niña necesita amor y comprensión de su familia para crecer feliz, no de una disciplina militar que no hace más que desvirtuar su infancia. El amor de los padres es el amor verdadero, no el de los AE que es manipulación. Un post muy emocionante.

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  12. Como pode uma instituição mexer com o psicológico de uma pessoa desse jeito? Isso é tão cruel que não tenho nem palavras para descrever. Hoje, com minha filha em casa, eu só sei agradecer a Deus todos os dias por ter aberto meus olhos, mas ao mesmo tempo sinto-me bastante pesarosa pelas crianças que ainda estão lá dentro sofrendo toda a espécie de abuso psicológico com esse descrito aqui.

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  13. Eu fui enrolando e pensando em tirar minha filha aos poucos, achava que poderia traumatizar ela.
    Dai esperei até que ela terminasse os estudos, pensei que ela estava em um bom colégio. Quando ela saiu de lá não sabia fazer absolutamente nada. Não tinha conhecimento algum. Não conseguiu emprego, não conseguiu passar para faculdade.
    O tempo que esteve lá dentro era apenas dedicado à João Clá.

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  14. Chegou me dar um nó na garganta lendo seu relato, me senti assim tbm, excluida, sendo torturada psicologicamente, sendo rejeitada pois nao obedecia fielmente ás leis que eles mesmos inventaram! Ainda bem que hj estamos aqui, livres, esclarecidas com as ideias realmente verdadeiras.

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  15. Muito obrigado pelo comovedor relato. O que não mata faz mais forte. Se alguém de lá dentro ler esto, conte com que a verdadeira familia sempre vai a estar bem disposta para o aceitar de volta a pesar da gritaria e malos tratos que tivermos com eles. Quando a pessoa sai acha que a familia va a tirar em cara tudo esse sofrimento que dimos para eles, mas não conheço nenhum caso assim e a familia fica mais forte.
    Ao contrario, você vai deixar de existir da noite para o dia para seus pseudo-irmãos arauticos, pois lá dentro você não é um ser humano, é só um clone a mais dos fundadores.

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