Lembro-me como se fosse hoje. Agosto, ano de 2009…

Tudo começou com a minha filha chegando em casa um dia após a aula, onde estudava no 6° ano, ela tinha 11 anos de idade, com um pacote de presente em mãos, feliz da vida, pois tinha ganho um sorteio. Pois bem, fiquei feliz também e abrimos o tal presente… uns papeis dentro, uma foto de nossa senhora de Fátima e um convite para participar de um projeto chamado “futuro e vida” com aulas de flautas, artes, teatro, takendow…

– Nossa, legal filha, uma instituição religiosa, isso é ótimo! Atividades nos finais de semana. Será muito bom porque também irá te tira do computador e TV um pouco. Você quer ir?

– Ah… acho que não mãe, nenhuma amiga vai. Só eu fui “sorteada”.

– Ah mas se for por falta de companhia a mãe pode ir com você.

Ela deu um sorriso e aceitou. Liguei para o número que tinha no papel e fui muito bem atendida. Pedi algumas informações, me ofereceram transporte que sairia da frente do colégio no sábado. Eu agradeci e disse que iria com o meu carro mesmo.

Sábado fomos eu e minha filha até a casa, em santa felicidade, na cidade de Curitiba. Chegando lá, confesso que fiquei meio assustada em ver tantas meninas tão novinhas. Crianças já de hábito e com aquelas botas e com uniforme. Fomos nos apresentando. Elas explicaram um pouco sobre o projeto e as atividades, então minha filha foi participar para experimentar. Ali passamos à tarde de sábado. Sim, fiquei com ela observando e acompanhando a tarde toda. Via muitos quadros de 3 pessoas pelas paredes 2 senhores e 1 senhora e alguns de nossa senhora. Enfim acabou com uma missa e um saboroso lanche. Confesso que saí de lá maravilhada pela conduta das meninas e a missa rezada de uma forma muito tradicional.

Viemos embora com o combinado de que no dia seguinte, domingo, ela iria novamente, dessa vez sozinha com a carona das irmãs que passariam na escola pegar ela e outras crianças obviamente. Assim foram 4 finais de semana, minha filha indo com as irmãs pegando ela e outras crianças em frente a escola Monsenhor Ivo Zanlorenzi, onde ela estudava. Após esse mês, minha filha fez uma prova na qual passou e pode permanecer frequentando o projeto. E assim foi. Ela ia nos finais de semana. Eu e meu marido sempre acompanhávamos, íamos às missas, participávamos de cursos, palestras, teatros.

Em novembro veio o convite para conhecermos São Paulo, eu, minha filha e meu marido. Então fomos passar um final de semana nós e outros pais com suas filhas. Único gasto seria o lanche na viagem e a hospedagem restante por conta deles. Chegando lá todos encantados e maravilhados com tanta beleza. Muita riqueza. Eu pensava… – Nossa! De onde aparece tanto dinheiro?! A minha paróquia faz tantos bingos pra fazer uma pintura e lá tudo crescia muito rápido. Lembro bem que durante a viagem as irmãs diziam rezem muito para o monsenhor (João Clá o Fundador) aparecer, se ele aparecer é porque vocês são pessoas de muita fé. Então, em um determinado momento, estávamos dentro da igreja e começou uma movimentação. Um corre, corre e um coro que dizia: – Ôhhhh… Nossaaaaa!

Fomos ver e lá estava o tal monsenhor em uma janela no alto e todos idolatrando ele. Mais uns minutos e esse homem começou a jogar bala e chocolate para as meninas que se “matavam” para pegar. Tinham umas que saiam até machucadas. Bom, nós não sabíamos do que se tratava. Pensamos: – Ahh… talvez seja um ritual para alegrá-las.

Então o ano de 2009 foi acabando e elas vieram até a minha casa falar que a minha filha era uma ótima apostolada, como chamavam as meninas do projeto e que estavam lhe concedendo uma bolsa no colégio dos arautos para o próximo ano. Ficamos radiantes e felizes. Nossa filha que estudava em uma escola estadual agora ganhou uma bolsa para uma escola particular, reconhecida internacionalmente e de freiras. Ela quis e nós também.

E assim foi para o ano de 2010, mas com uma condição da nossa parte. Ela ia pela manhã e voltava à noite todos os dias para casa. E foi aceito. Mas ela insistia muito em morar lá e as irmãs também sempre falando. Eu falava sempre não, tinha de ser do meu jeito, ela em casa todas noite. E permaneceu assim. Porém, nos finais de semana, minha filha sempre estava escalada para algo e tinha que passar sábado e domingo, dormia lá nessa noite. Sempre a mesma história. Era a tal vocação.

O tempo foi passando e durante esse tempo, mais eu do que meu marido sempre estava nas missa e cursos. Esses cursos só falavam em dona Lucilia, Plinio e joão Cla. A minha filha pedia muitos livros dessas 3 pessoas. Dizia que eles faziam milagres, que era pra eu pedir muito, com fé pra eles quando eu precisasse de algo. Eu acabei me envolvendo muito e acreditando em muitas bobagens pra ficar ao lado da minha filha.

Até que um dia as irmãs me convenceram que o melhor lugar para a vocação da minha filha seria morar lá. Como eu disse, a insistência era grande. E assim foi ela morar na sede de Curitiba em junho de 2012, com 14 anos de idade.

Eu sempre cobrava muito os finais de semana em casa, mas era muito difícil ela vir. Sempre com muitas tarefas e responsabilidades, sem contar as inúmeras viagens que fez nesse período para São Paulo só com as irmãs. Era um tormento e uma choradeira quando eu não a deixava ir, ficava em casa de cara feia e emburrada só com o terço na mão.

No fim daquele ano ela terminou o ensino fundamental e iria para o ensino médio em 2013. Vieram as irmãs novamente alegando que ela precisaria ir para São Paulo morar lá e estudar, pois em Curitiba não tem o ensino médio. De imediato falei que não. Porém me pediram para pensar e assim fiz. Depois de muita conversa em casa, minha filha me disse:

– Mãe, por favor, é minha vocação. Você quer o que para mim no futuro? Quer que eu seja o que?

Eu respondi:

– Feliz.

Ela me olhou e disse:

– Então minha felicidade mora lá. Por favor me deixa ir. eu preciso seguir minha vocação.

Agora ela estava com 14 anos e meu coração de mãe iria negar um filho à vocação religiosa? Não! Então decidimos em família que ela iria. E assim foi.

Minha filha foi morar em São Paulo e para isso as irmãs prometeram nos levar sempre que possível para visitá-la. E fomos com elas, sempre que dava, elas convidavam e o único custo era hospedagem. Isso até minha filha completar a maioridade. O primeiro ano que ela morou nos arautos até que foi tranquilo. Nós íamos sempre visitá-la em reuniões da escola, em datas especiais, como dia dos pais, dia das mães. Ela ligava bastante pra casa e nos atendia sempre que ligávamos.

Já nos demais anos, as vindas para casa foram ficando cada vez mais difíceis. Uma vez minha filha chegou a me dizer que não conseguia sair de lá para vir pra casa. Eu questionei e ela me dizia que não sabia, mas que não conseguia sair de lá. Que tínhamos que entender que ela tinha muitas tarefas por lá. Mas eu sempre cobrava dela para que desse um jeito de ir para casa, pois precisava dela, sentia sua falta, seu irmão sentia sua falta. Após muita insistência ela acabava vindo com as irmãs de avião ou de ônibus. Como já não compravam mais a passagem para nós pais irmos para lá, igual no início, já não era tão fácil, tínhamos que ir com o nosso próprio carro, ônibus, etc… inúmeras vezes alegavam que não tinha carro disponível para nos levar.

Foram passando os dias, comecei a me preocupar pois as ligações diminuíram, as visitas também, o afeto, o carinho… o abraço então, não existia mais quando nos encontrávamos. Era apenas um tapinha nas costas e um salve Maria. Isso começou a me incomodar, principalmente as ligações.. pois só ligava para pedir dinheiro. Comecei a me preocupar, pois senti que algo estava errado, que estava perdendo minha filha… Aí vinha a questão da vocação! Ahh, a tal vocação.

No início de 2016 comprei passagens aéreas de ida e volta para que ela viesse para casa no aniversário do irmão. Tudo certo, tudo combinado, tudo acertado. Mas dois dias antes ela ligou dizendo que achava que não viria, pois na mesma data da viagem eles iriam para o mar e era muito importante para ela ir com eles, mas que em outra data ela viria e que era para eu tentar trocar as passagens. Fiquei muito brava, muito triste, muito revoltada, chorei muito, e pensava como pode trocar uma visita à família, aniversário do irmão por um passeio no mar… mais um ponto negativo e mais uma pulga atrás da orelha… ela não veio. Perdi as passagens, pois não tive nem cabeça para ir atrás e tentar mudar.

Passou um tempo e ela apareceu de surpresa no meu portão com outras duas irmãs. Claro, acolhi ela como sempre, com muito amor e carinho, mas como sempre recebi apenas um salve Maria e uns tapinhas nas costas. Nada de abraço afetuoso. Era de cortar o meu coração. Pois bem, nesse mesmo dia as irmãs vieram com um papo de que agora ela era maior de idade e tinha muitas funções lá dentro, que ficaria mais difícil vir pra casa nas férias e que não dormiria mais em casa durante essas visitas. Não concordei e falei que enquanto eu fosse viva, ela iria sim passar férias em casa e iria sim dormir em casa. Que se não fosse assim elas podiam ir embora sem a minha filha, pois ela não voltaria. Elas concordaram e assim ficou combinado. Mas ainda tinha uma preocupação e sentia que algo não estava certo.

Porque não vir pra casa nas férias? Até onde eu sei até os padres tiram férias durante o ano e porque só lá nos arautos do evangelho não podem vir pra casa? Isso me incomodava.

Uma vez uma irmã me disse que fazia 6 meses que não falava com sua família por falta de tempo. Como assim?! Isso não tem cabimento.

Em julho de 2016 ocorreu uma morte dentro das dependências da ordem II. Uma moça que caiu da janela enquanto a limpava no 3º andar do “castelo”. Até onde eu sabia essas meninas, nem as suas próprias roupas lavavam, quem dirá uma janela. Essa foi a explicação. Uns falam que ela estava depressiva, outros que estava no quarto e há muito tempo não saía de lá e há quem diga que ela entregou sua vida, ou seja, se suicidou. Não tenho como provar isso, foi o que ouvi, mas o pior é que no mesmo dia de sua morte os integrantes dessa instituição já deram a ela o título de santa, pois já estava fazendo milagres no mesmo dia de sua morte, coisas sem pé nem cabeça que ouvia da minha filha durante visitas, sem contar a idolatria por Plinio, Lucilia e João Clá.

Foi então que, em maio de 2017 recebi vídeos desse povo falando e zombando do papa, fazendo “exorcismos”, do monsenhor obrigando meninas a fazerem os votos, batendo com folhas e com a mão nas meninas. Meu mundo desmoronou! Minha filha lá dentro desse absurdo todo, um local onde idolatram apenas o seu fundador, onde ensinam que tudo aqui fora é pecado e que a própria família a leva a pecar. Desejam a morte do papa Francisco nesses vídeos. Os vídeos saíram do ar e a pessoa que os publicou responde processo. Os arautos respondem o que sobre isso, ao serem questionados? Que é normal. As meninas em questão no vídeo estavam sendo exorcizadas enquanto outras riem e ficam filmando. Porque não pegaram o terço e não foram rezar nesse momento de joelhos? Enfim, fiquei horrorizada com o que vi nos vídeos e só queria saber de trazer minha filha pra casa. Graças ao meu esposo que foi sábio e me alertou que tínhamos que esperar as férias de julho para deixar ela em casa. Eu queria ir naquele momento buscá-la, mas ela com 19 anos e nós no território deles, jamais venceríamos. Em julho de 2017, com 19 anos, proibimo-la de voltar.

Precisei ir para outra cidade ficar longe de tudo e de todos, pois já tinha ouvido relatos de que eles voltam para buscar quem é maior de idade. Como aconteceu com outra mãe que tentou fazer a mesma coisa que fiz, após saber que seria proibida dela de voltar, manteve contato com elas que por sua vez a aconselhavam a fugir. Isso mesmo! Mandavam ela fugir da própria família.

Minha filha sabia do amor que tínhamos por ela e graças a deus nunca tentou fazer isso, mas tanto ela quanto eu precisamos de tratamento psicológicos e psiquiátricos na época. Tenho laudos até hoje. Tomei antidepressivos e remédios para dormir e minha filha também. Foi muito triste ver minha filha em uma cama implorando para voltar para esse local dizendo que a vida dela estava lá. Minha filha me disse que eu estava acabando com a vida dela e com sua vocação. Ofereci outra congregação, pedi para ela conhecer pois não iria tirar a vocação dela e a resposta era não, que sua vocação é só nos arautos. Como assim?! A vocação é a deus ou a congregação? Ela ficou muito revoltada. Não aceitava nada no início. Ia nas missas em outras igrejas mas sempre com cara feia, brava e emburrada.

Oferecemos a ela participar da vida em comunidade, dar catequese, grupo de jovens e nada ela aceitou até hoje. Então cadê a vocação?

Foi muito difícil os primeiro 6 meses. Ela estava doente e em tratamento, eu também. Fui até encostada pelo INSS do meu trabalho. Minha vida virou de ponta cabeça, não achava que seria tão difícil.

Mudei de cidade com minha filha e meu outro filho. Fui para casa dos meus pais que me deram o maior apoio. Meu marido ficou sozinho em nossa cidade natal. Foram os piores 6 meses da minha vida, tentando reanimá-la, reerguê-la, mas foi difícil. Por um momento achei que nunca mais teria o amor de minha filha, foi difícil para ela se libertar de tudo que viveu lá dentro, ensinamentos absurdos, roupas, costumes, penteados, fala…  foi um verdadeiro sufoco. Eu tinha muito medo deles virem atrás de mim, mas graças a Deus, acredito que me escondi bem porque se tivesse ficado na minha casa eu teria perdido ela, pois algumas vezes os vizinhos viram eles em frente a minha casa durante esse período. Meu marido entrou em contato com os Arautos pedindo que encaminhassem tudo o que era dela e claro mandaram os documentos, uns papéis, um relógio, um dicionário e só. Até hoje esperamos o notebook e a flauta transversal dela, me encaminharam um bilhete alegando que ambos estavam estragados. Tudo bem. O importante é que hoje ela está bem psicologicamente, se reestruturando e se restabelecendo nesse mundo desconhecido que é aqui fora para eles.

Eu poderia estar quietinha no meu canto, pois minha filha está bem e comigo, mas fico indignada com a forma como os arautos agem: atraem as crianças, destroem seus sonhos, tiram os filhos dos pais e da família aos poucos. É muita crueldade. Outras mães estão sofrendo, muitas famílias arruinadas por perderem seus filhos para essa instituição. Porque pegar essas crianças tão pequenas? Isso é uma judiação! Cadê a justiça? Queremos uma resposta para tudo isso.

Esse é o meu relato e espero poder colaborar para colocar um fim a todos esses abusos.

Att. Mãe de ex arauta.