Após vários meses observando o comportamento de seus filhos e de outros jovens, que ainda integram os Arautos do Evangelho, e de jovens que já abandonaram essa entidade, pode-se perceber que não se trata de uma relação respeitosa, que valoriza a condição mental íntegra, permitindo à criança, ao adolescente ou ao jovem que lá se encontra fazer escolhas baseadas em julgamento acurado e desimpedido.
Chama a atenção o fato de que TODAS as crianças que ingressam nessa entidade tem vocação religiosa. Recebem hábito quando criança, afastam-se da família… E a criança passa a acreditar nessa “vocação”. Como isso seria possível? Mais provável que os Arautos do Evangelho, através da manipulação, “desenvolvem” a crença da vocação religiosa nessas crianças. Vejamos:
– Dificultam os encontros dos filhos com seus pais, irmãos e demais familiares, invocando desde doenças inexistentes, compromissos de última hora etc, induzindo a criança a acreditar que se ela mantiver relacionamento com a família e com o mundo externo, estará a trair a sua decisão de seguir os votos religiosos.
Importante destacar que o direito fundamental à convivência familiar, respaldado no artigo 227 da Constituição Federal e assegurado pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), valoriza as relações afetivas da família, vez que, é na família que a criança encontra refúgio e apoio. É no meio familiar que a personalidade da criança se estrutura.
– Matérias do ensino fundamental e ensino médio são baseadas em textos de Plínio Corrêa, extraídos de seus livros. São excluídas leituras de escritores como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, José de Alencar, Oswald de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, entre outros, cobrados em vestibular, além de retirar a oportunidade de os alunos conhecerem a riqueza literária que há nessas obras. Aqueles que são mandados de volta pra casa ficam perdidos e em crise diante de um conteúdo que nunca viram, além de não entenderem porque de repente deixaram de ter a tal “vocação”. É preciso lembrar que os contextos respeitadores da dignidade são mais includentes e abertos às diferenças, menos patrulhadores, menos padronizadores, menos opressores.
É inaceitável qualquer ato que viole ou contrarie o direito à liberdade, o respeito e a dignidade das crianças e dos adolescentes, garantidos pelo ECA. O art. 17 dispõe que o direito ao respeito será garantido se observada a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.
Portanto, o direito ao respeito compreende a preservação da integridade física e psíquica, que possui especial relevância tendo em vista a condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, não representando a mera não agressão, além da integridade moral, entendida como a preservação dos valores morais da criança e do adolescente.

Rosiley Piva