Um dos grandes dilemas que enfrenta o fenômeno religioso nos dias atuais é o surgimento de setores sectários dentro das próprias tradições religiosas mais consolidadas, como o islamismo e mesmo o catolicismo,
Num primeiro momento pode soar estranho essa categoria genérica de seita ser atribuída a movimentos como os radicais islâmicos e ao mesmo tempo aos Arautos do Evangelho, por exemplo. Por isso é preciso antes de mais nada dar uma definição que toque não somente no entendimento teológico do que é uma seita segundo a doutrina católica, a qual os Arautos se filiam, mas também um conceito sociológico, mais amplo.
Recentemente foi lançado na França e no Canadá um denso estudo baseado na experiência de ex membros de movimentos eclesiais católicos sectários. O livro comporta não apenas os relatos de suas vivências nesses ambientes radicalizados, mas também apreciações de sacerdotes e estudiosos do fenômeno sectário na contemporaneidade. “De l’emprise à la liberté: dérives sectaires au sein de l’Église” já nasce como uma obra de referência no tema.
Uma conceituação segundo a forma da teologia católica vai nos dizer que seita é tudo aquilo que foge dos rumos da ortodoxia, isto é, da doutrina pré-definida e aceita pela Igreja. É uma separação, uma dissidência, ainda que com louváveis intenções de se manterem fiéis à originalidade da doutrina cristã. Os montanistas no começo da Igreja, chegaram a seduzir até mesmo o grande Tertuliano e os Cátaros, já na Idade Média, buscavam uma tal pureza doutrinária que se afastaram da ortodoxia católica.
Já do ponto de vista sociológico, há certos elementos que são caracterizadores de um movimento sectário. Para o Centre de Documentation, d’Éducation et d’action contre les Manipulation Mentales – CCMM, órgão francês responsável por identificar os movimentos sectários naquele país, as características principais das seitas são seus “métodos e ações que atacam a liberdade e a dignidade humanas, destruindo o indivíduo, a família e a sociedade.”
Para os autores do livro canadense, os sinais de que uma comunidade religiosa vive uma experiência sectária são:

1) Culto ao fundador – no caso dos Arautos, ponto central de toda a espiritualidade do movimento
2) As rupturas familiares, de amizade, social, eclesial, de informações e até sanitária.
3) Culto da culpa e do sofrimento
4) Vocabulário próprio ao grupo – também no caso aráutico é bem perceptível o uso de gírias internas visando dificultar a comunicação com elementos exteriores à seita.
5) Multiplicidade de devoções. Aqui encaixa-se, segundo os autores, o frequente recurso aos exorcismos, como os denunciados em vídeo no ano de 2016
6) Votos particulares – como no caso da Sempre-Viva, onde os arautos se consagram escravos do fundador.
7) Recrutamento vocacional
8) Enganos e dissimulações
9) autoritarismo e submissão dos membros
10) Todo questionamento como vindo do mal
11) Humilhação e culpabilização
12) Incoerência de vida, sobretudo na vida “extraordinária” do chefe

Todos esses elementos apontam para uma preocupante ascensão de movimentos que buscam a radicalidade na direção inversa da que assume a Igreja na contemporaneidade, sobretudo não reconhecendo o caráter misericordioso que o papa Francisco reiteradamente acena. Não sem razão, muitos deles são críticos ferrenhos do atual papa, como os próprios Arautos, que em vídeo divulgado no ano de 2016, manifestam desejo pela imediata morte do papa.
Ainda quando os membros dos Arautos do Evangelho integravam a Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – TFP, passado que buscam reiteradamente ocultar, eles foram catalogados pelo órgão do governo francês responsável pela identificação das seitas destrutivas como um movimento sectário, o que os levou inclusive a publicar um livro em sua defesa: “A Nova “Inquisição” Ateia e Psiquiátrica”, no ano de 1996, visando afastar de si a pecha sectária.
Um relatório parlamentar de inquérito feito em 1995, na França, catalogou 173 movimentos situados na direção sectária dos movimentos religiosos, apontando uma preocupação estatal pelos efeitos deletérios que estes movimentos vinham causando na população francesa.
A TFP ganhou ali espaço, pelas práticas exóticas de culto, de recrutamento e de vida interna que ainda hoje permanecem nos Arautos do Evangelho, acusados sobretudo de lavagem cerebral em seus membros.
Os movimentos sectários fazem parte das grandes provas pelas quais passa o catolicismo nos dias atuais.
Muitas vezes, levados por um são desejo de santificação radical e de aproximação de Cristo, as pessoas deixam-se seduzir por movimentos eclesiais que na aparência católicos, internamente são fundamentalistas ou mesmo desvirtuam os princípios do catolicismo, adequando-os à sua realidade interna, para favorecer ao seu movimento.
É preciso não apenas buscar resgatar as vítimas desses movimentos sectários que tanto mal fazem à Igreja, mas alertar aos que tem a justa ambição da santificação que fiquem atentos aos sinais que esses movimentos sectários deixam transparecer de suas reais intenções.