A primeira vez em que tive contato com os Arautos do Evangelho foi no domingo de ramos de 2017. A convite de alguns amigos, insisti para que minha família me acompanhasse naquela Missa, que, mal sabia, seria a primeira de muitas.
De cara, notei a diferença em relação à Paróquia em que frequentava: músicas cantadas em latim, durante a liturgia, que, mais tarde, descobri se tratar do antiquíssimo canto gregoriano; crucifixos e imagens de Nossa Senhora no presbitério; comunhão distribuída de joelhos e diretamente na boca; filas longas no confessionário; sermões levados à exortação, nos quais, reparei depois, muito se falava de um tal de Plinio, filho de Lucília e de um tal outro Monsenhor João Clá, o fundador…
O aparente zelo com a religião encantou. Percebi que aquele entusiasmo era compartilhado por quase todos que lá conhecia e, contagiada, passei domingos atrás de domingos indo nas Missas da sede.
Numa dessas tardes tranquilas, após cerca de um ano em que lá frequentava, fui convidada para um retiro de silêncio para mulheres. A terciária da ordem me garantiu: “vai ser fenomenal!”. E, de fato, comecei a notar alguns “fenômenos” (no mínimo) estranhos… O primeiro deles foi o fato de o pregador do retiro, um Arauto eremita já senhor de idade, só ter falado da vida cotidiana na Ordem Segunda, ramo feminino dos Arautos, apesar de ter nos assegurado que se baseava nos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. Vai ver Santo Inácio também previu o tal Reino de Maria, pensava comigo… Desses relatos em que não faltaram elogios aos inúmeros exemplos de suposta bravura e santidade das Irmãs, nasceram, em algumas participantes (descobri mais tarde), dúvidas a respeito de sua vocação, ainda que já estivessem noivas (!). Claro, como preterir toda aquela beleza sacral?!
Muito pitoresco, também, foi quando o pregador apresentou os vídeos das supostas lacrimações que ocorreram nas imagens das Casas dos Arautos do Evangelho de diferentes países. Como me esquecer de “ah, mas a ‘Igreja’?! A ‘Igreja’ está ‘analisando’ as lágrimas”. João Clá quer, segundo ele, divulgar os fatos “custe o que custar”, sem esperar o parecer da Igreja, pois “estava cansado de silêncio e omissão”. Era fácil concluir que fora daquela “ordem religiosa” não havia verdadeira Igreja…
No último dia, foram muitos “flashes”. Descobri, boquiaberta, que, no fim dos tempos, a América do Norte seria submersa devido à queda de um meteoro no oceano; que, em 2017, centenário de Fátima, João Clá esperava a vinda desse meteoro ou algo semelhante; que tal esperança se baseava em estudos feitos sobre um planeta chamado “Hercólubus”; que havia um lugar chamado “trans-esfera” onde os seres espirituais relacionavam-se e as expiações eram feitas para reparar os ataques do demônio e os pecados e, ainda, que lá Deus conversou com o demônio na passagem do Livro de Jó.
Ufa! Quantas profecias! Como Santo Inácio nunca tinha pensado nisso antes?! As intrigas não pararam por aí. Ainda não sei como o pregador sabia de coisas que eu só tinha falado para o Padre em confissão… Ah, deixa para lá. Deve ser por causa da santidade deles que são capazes de ver até o estado de alma das pessoas… já é certo que Mons. João tem esse dom. Tanto é que os Padres de lá me recomendaram insistentemente escrever uma carta ao ilustre-arqui-eremita-fundador com uma foto minha, perguntando de minha vocação. “Ele vê tudo!”, eles me disseram.
Muitos fenomenais depois e cada vez mais inconsciente, estava resolvida: na próxima semana, estaria no Congresso da OII para confirmar minha (“que flash!”) vocação. Acompanhada de mais ou menos 700 crianças, de, no máximo, 12 anos, vivenciei um ambiente totalmente hipnótico. Dormíamos cerca de 6 horas (ou menos) por noite e não passávamos um minuto do dia sem atividades (ou melhor, teatros estrelados pelas próprias eremitas, em que se enalteciam as virtudes “heroicas” e “sublimes” de dona Lucília). Ah, sim… o tema do Congresso era dona Lucília. E ai das congressistas que não ostentassem o devido trato “luciliano” umas com as outras! Os Padres faziam questão de no-lo lembrar, nos seus ditos sermões.
Por todos os lados, via “escravas” (como as Irmãs se autodenominam) de Portugal, do Canadá e até do Vietnã respirando, dia e noite, os fundadores, ou melhor dizendo, “Senhor Doutor Plinio”, “Senhora Dona Lucília” e “Papito” (o pai João – ou seria Papa?! – das eremitas). Com não muita dificuldade se via que a “Rainha do jeitinho” já não se invocava mais só em terras brasileiras… Uma das coisas que mais me exigia empenho era arrumar um tempo livre em que pudesse telefonar para minha mãe. Para onde quer que eu olhasse, percebia-me cercada de escravas (escravidão a Nossa Senhora ou a dona Lucília?!), e a privacidade parecia não existir. Com o passar dos dias, reparei que outras meninas também sofriam desses mesmos “fenômenos”… aos prantos, vieram me pedir o celular emprestado para que pudessem ligar a seus pais.
Já dá para imaginar que o luxo portentoso dos recintos (mesas de mármore de mais de dez metros; vitrais finíssimos etc.), bem como a culinária pomposa que nos era servida (ficar sem sobremesa, nunca!) não compensavam as cenas um tanto quanto inusitadas a que éramos obrigadas a assistir, como quando vários anjos, no Céu, de vestes muito bordadas e brilhantes, cantaram em estilo polifônico várias vezes a palavra “Lucília”, erguendo os braços em louvor (fenomenal!!! Como não aclamar aquela senhora que tinha a “alma imaculada” – conforme disseram –, não é mesmo?!).
No geral, assistíamos a duas Missas por dia, uma pela manhã, rezada por “Papito” em Lumen Prophetae, e outra às 19h. Lá pelo terceiro dia, decidi me confessar durante a Missa da manhã. Depois de algumas exortações ao aprofundamento da intimidade com os fundadores, como ver mais vídeos na “TvArautos” (será que assim eu me conectaria com eles na trans-esfera?!), eu só não esperava que o Padre me passaria, como penitência, uma oração que “Nosso Pai e Senhor” (como chamam Plinio) havia feito para dona Lucília, sua própria mãe, conhecida por oração da restauração… e eu pensando que se tratava de Nossa Senhora na prece!
A palavra “seita” tem origem no latim “secta” e significa cortada, separada, segregada. Trata-se de um grupo religioso que segue uma doutrina própria e peculiar. Sendo a Igreja de Cristo a única verdadeira, isto é, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana fundada sobre São Pedro, não há nela espaço para seitas, tendo em vista a unicidade de doutrina e de governo pelo Papado que não pode com elas coexistir.
Os Arautos do Evangelho, sectários que são, bem o sabem: têm não só uma doutrina (delirante) própria, como também um papa (isso mesmo!), o mestre-sacral- insubstituível-fundador João Clá. E não falo somente do fato de o chamarem de “Papito”… em todas as Missas a que no Congresso assisti, simplesmente se omitiu, na oração eucarística pela Igreja, o nome do Papa Francisco! Como se ele não existisse ou não fosse o nosso verdadeiro Papa! Não te parece um ato cismático?!
Voltei, enfim, para casa, mas os absurdos não saíam da minha cabeça. Ainda me lembro do último jantar que lá tive. Ao final, as Irmãs distribuíram medalhas com fotos das imagens que (supostamente) lacrimejaram nas sedes dos Arautos. Ao ver que se tratava de uma foto de Nossa Senhora, uma congressista, de cerca de 10 anos, disse “ah… queria uma medalha de dona Lucília!”.
Como podem fanatizar tantas crianças?!
Como podem arrastar para a condenação tantas almas?!
Como podem destruir tantas famílias?!
Como podem?!
Até quando?!
Parasitas na Santa Madre Igreja, eles escandalizam os fiéis e os infiéis. Quanto mais se parecem verdadeiros baluartes da Tradição, mais enganam. Assim, a maioria dos membros da Igreja que descobrem suas heterodoxias e problemas morais, acabam por pegar, lamentavelmente, aversão até às poucas coisas que essa entidade parasitária afanou do catolicismo, como a devoção à Nossa Senhora e ao terço, a comunhão na boca, a frequência na confissão, o canto gregoriano. Tudo isso propiciado pela carência de formação verdadeiramente católica nas catequeses por aí… de tal modo que muitos perdem a Fé depois de lá saírem. Por outro lado, diante desse escândalo, os pagãos sentem-se à vontade para fazer o que mais sabem, difamar a Santa Igreja e, dessa forma, aniquila-se cada vez mais qualquer possibilidade de se converterem…
Malditos!
Nunca mais ponho os pés naquela seita.
É evidente, sobretudo, que Deus nos permitiu passar tamanho tempo naquele lugar para a maior glória dEle, para servimos de instrumento de Suas mãos na batalha pela Santa Madre Igreja, implorando a graça de perseverar até o fim, “3.Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. 4.Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas.” II Timóteo, 4. E esse tempo é agora.
Católica, estudante e ex-frequentadora dos Arautos do Evangelho.
Apêndice: Oração da Restauração
Há momentos, minha Mãe, em que minha alma se sente, no que tem de mais fundo, tocada por uma saudade indizível. Tenho saudades da época em que eu Vos amava, e Vós me amáveis, na atmosfera primaveril de minha vida espiritual. Tenho saudades de Vós, Senhora, e do paraíso que punha em mim a grande comunicação que eu tinha convosco. Não tendes também Vós, Senhora, saudades desse tempo? Não tendes saudades da bondade que havia naquele filho que fui?
Vinde, pois, ó melhor de todas as mães, e por amor ao que desabrochava em mim, restaurai-me: recomponde em mim o amor a Vós, e fazei de mim a plena realização daquele filho sem mancha que eu teria sido, se não fosse tanta miséria. Dai-me, ó Mãe, um coração arrependido e humilhado, e fazei luzir novamente aos meus olhos aquilo que, pelo esplendor de vossa graça, eu começara a amar tanto e tanto!…
Lembrai-vos, Senhora, deste David e de toda a doçura que nele púnheis.
Assim seja!